segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Olhar é passivo, ver é ativo.

O Mestre Sênior do Sistema Ving Tsun de Kung Fu Julio Camacho, ao qual passarei me referir por SI Fu ( Líder de Família Kung Fu ) nessas linhas, constantemente nos alerta para a necessidade de termos atenção às palavras, e que buscar sair do automatismo do linguagem é um excelente dispositivo de alinhar o pensamento à uma atitude marcial.

Dessa maneira, é comum em nossas práticas do Nível Superior Final do Sistema, meu Si Fu atento de forma contundente nas pequenas brechas que deixamos em aberto no uso dos termos da linguagem, salientar como ser despretensioso, ou mesmo desatento as nuances da comunicação, nos deixa vulneráveis como entrar numa luta com a guarda displicente. 

Mestre Sênior Julio Camacho orientando Claudio Teixeira 
em Angola no processo de Mobilização 


Nesse fim de semana em específico, durante nosso encontro matinal de Domingo, dentre inúmeros assuntos abordados sobre nossa conduta marcial, todas com uma ênfase muito voltada para o uso do Kung Fu no dia dia, meu Si Fu levantou um tema, que sempre me passou desapercebido. O quando muitas vezes a ausência de atenção num dos sentidos que mais usamos durante a vida, é reflexo de uma baixa marcialidade para o cotidiano. 

Ao centro o Mestre Sênior Julio Camacho, 
À esquerda seu Discípulo o Mestre Thiago Pereira
À direita seu discípulo o Tutor Claudio Teixeira

Em suas palavras, não escolhemos o que olhamos, porque o ato de olhar nos é tão natural quanto displicente. O mundo diariamente passa pelo nosso olhar, e de maneira pouco objetiva, assistimos passivamente o que vai acontecendo, pois por não termos o mínimo controle sobre como as coisas vão se configurando diante de nós, acabamos por exercitar muito menos a capacidade de ver tudo o que deveríamos. 

Enxergar o mundo por um prisma Kung Fu, exige do praticante uma maneira de ver o mundo de forma muito mais ampla que ser um mero refém do que olhamos. É preciso estar sempre alerta, de forma relaxada, para que possamos extrair ao máximo benefícios legítimos do tudo que nosso olhar nos apresenta. Buscar ver além do senso comum, é uma maneira de interagir com a vida sem sermos reféns nem vítimas das circunstâncias. 

A lendária foto "Café na Linha Central" do
Mestre Sênior Julio Camacho tirada 
pelo olhar atento do seu Discípulo Claudio Teixeira 

Esses ensinamentos do meu Si Fu passados nessa ultima manhã de Domingo, me levaram à uma profunda reflexão do quanto por muitas vezes eu não consegui me conectar de forma eficaz aos outros e aos cenários que vida me apresentou, por pura passividade na minha maneira de olhar a vida. E o quanto ainda tenho através do Sistema Ving Tsun de Inteligência Marcial para refinar-me como ser humano. 




quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Os Desafios de um Mestre de Kung Fu na América

Mestre Sênior Julio Camacho
Senior Master Julio Camacho

Nascido no Rio de Janeiro no Brasil em 30 de Novembro de 1969, o Mestre Sênior Julio Camacho, Titulado pela Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence  em 15 de Março de 2003, iniciou sua jornada como Tutor do Sistema Ving Tsun de Kung Fu em 1992, tem sua vida praticamente voltada e dedicada às artes marciais.                                    Born in Rio de Janeiro, Brazil, November the 30th, 1969, Senior Master Julio Camacho, titled by the Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence in March the 15th, 2003, started his Ving Tsun Kung Fu System tutoring journey in 1992, dedicating a great share of his life to the martial arts.

Morando atualmente em Hallandale Beach, Flórida nos EUA, hoje enfrenta os desafios de ensinar Kung Fu na América, através Legado da Denominação Moy Yat Ving Tsun. Instituição de ensino dessa Arte fundada em New York em ,  pelo Patriarca Moy Yat quando se tornou o Primeiro Mestre de Ving Tsun reconhecido por Patriarca Ip Man (Mestre de Bruce Lee) a transmitir  o Sistema Ving Tsun para além da China em 1973.

Currently living in Hallandale Beach, Florida, USA, he faces today the challenges of carrying the Moy Yat Ving Tsun legacy, which has reached the Western world through Patriarch Moy Yat, who in 1973 established himself in America, by that becoming the first Ving Tsun Grandmaster recognized by Patriarch Ip Man (Bruce Lee's master) to transmit our art beyond China.

Mestre Sênior Julio Camacho ao lado de Patriarca Moy Yat que
Introduziu o Sistema Ving Tsun no Ocidente
Senior Master Julio Camacho
Senior Master Julio Camacho next to Patriarch Moy Yat 


 
Mestre Sênior Julio Camacho
ensinando o Nível Superior Final
do Sistema Ving Tsun
Senior Master Julio Camacho teaching
the last Ving Tsun system level

Sua ida para os EUA se deu através do ambicioso projeto da Internacionalização do Clã Moy Jo Lei Ou, instituição de Kung Fu que leva seu nome ao qual ele é o Líder. Projeto esse que  foi atravessado por todas questões geradas pela pandemia de Covid-19 que assolou todo o planeta gerando circunstâncias imprevisíveis em sua formatação.
Camacho's move to the US came as part of an ambitious Moy Jo Lei Ou Clan internationalization project, a Kung Fu institution that carries his name and of which he's leader. The project was trespassed by all the issues the Covid-19 pandemic has been generating to the world as whole, though he keeps on following his own maxim that tell us that "Kung Fu is the ability of generating benefits from any situation no matter how it presents itself".
  
Mestre Sênior Julio Camacho praticando seu
requintado Kung Fu no exuberante Grand Canyon
Senior Master Julio Camacho practicing his Kung Fu 
in the magnificent Grand Canyon

Guiado por sua própria máxima onde sempre afirma que: "Kung Fu é a habilidade de se gerar benefícios de qualquer situação, independente de como esta se apresente, além de se continuar conduzindo à distancia todas as decisões das três escolas que hoje lidera no Rio de Janeiro nos bairros da Barra da Tijuca, Ipanema e Tijuca, e apoiando o desenvolvimento  o Kung Fu de seus Discípulos no Brasil, e dando continuidade em seu trabalho em solo americano.

No dia 05 de Novembro de 2020 às 22:30 no horário de Brasília e 9:30 PM horário da Flórida,  o Mestre Sênior Julio Camacho participou do Podcast Bubbles que você poderá assistir pelo Youtube clicando (aqui), ou pelo Instagram clicando (aqui).

Besides remotely guiding the three schools he currently leads in Barra da Tijuca, Ipanema and Tijuca neighborhoods of Rio de Janeiro, backing up the Kung Fu development of all his Brazilian disciples and working on his goals on American soil.

On November 5, 2020 at 10:30 pm Brasília time and 9:30 pm Florida time, Senior Master Julio Camacho participated in the Podcast 22:30 GMT -3 (Brasília time)/9:30 p.m. GMT -5 (Eastern Time Zone) and you can watch it on YouTube or Instagram.


Não percam a oportunidade de participar dessa entrevista sobre como o Kung Fu pode ser usado contra os desafios da luta do dia dia, através da perspectiva de um Mestre.

Don't miss the opportunity of being part of this interview about the use of Kung Fu on the daily challenges of life, through the lenses of a Master.



 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Um novo ciclo.

        A mesa Ancestral de um Mogun (Sala de Guerra), conhecida por nós praticantes do Sistema Ving Tsun de Inteligência Marcial por SAM TOI, simboliza a parte mais importante de nossa cultura no que se refere ao processo conhecido por Família Kung Fu. O mestre Sênior Julio Camacho, ao qual passarei me referir por Si Fu (Líder da Família Kung Fu) nessas linhas, nos ensina que ao contrário do aparente aspecto de religiosidade em sua composição, não há um nada de metafísico atribuído à esse espaço tão importante em nossos Centros de Transmissão, mas sim um processo memorial. 

Mestre Sênior Julio Camacho
Sentado à Mesa Ancestral em Ipanema 

        Uma  das bases de nossa cultura Kung Fu se apoia no Zelo como pilar de nosso processo de transmissão, muito além de um conceito, a atenção cuidadosa faz parte de nosso processo pratico que deve se manifestar em nossas ações. Praticamos o Zelo no Mogun para agirmos em função desse mesmo Zelo na vida. Nesse aspecto, o cuidado com o SAM TOI é primordial para refletirmos a importância da Ancestralidade. Ao arrumarmos a Mesa, que trocarmos as frutas enquanto frescas, prepararmos o chá e acendermos o incenso, trazemos ao momento presente a memória de nossa Ancestralidade representada nos Carimbos de nossa Genealogia junto com a foto de nosso Patriarca Moy Yat. Meu Si Fu orienta compreendermos que Ancestralidade não se trata apenas de uma questão voltada para o passado, mas também para o o futuro, por que um dia seremos ancestrais de alguém. Dessa maneira, as duas cadeiras reservadas ao Líderes da Família, compõe esse simbolismo salientando que nossos Líderes são referências na busca pelo uso do Sistema como ferramenta de Desenvolvimento Humano

No último Sábado, dia 31 de Setembro de 2020, tive a honra de ser o responsável pela  Abertura do SAM TOI na nova Sede do Clã Moy Jo Lei Ou na Barra da Tijuca, localizada no Shopping Downtown. Numa Cerimônia onde participaram os Discípulos do Mestre Sênior Julio Camacho, meu Sihing (irmão Kung Fu mais velho) Vladmir Anchieta, e meus Si Daai (Irmãos Kung Fu mais novos) Guilherme de Farias, Maria Alice e Clayton Quintino, cumprimos o papel de representar nosso Si Fu nesse importante marco, transformando aquela a sala 218 do bloco 21 do Shopping numa Casa do Clã Moy Jo Lei Ou.

Tutor Claudio Teixeira em Cerimônia de 
Abertura da Mesa Ancestral Sede Barra

        O momento mais que especial em particular para mim, por poder Coordenar o rito nos ditames de nossos protocolos tradicionais, nesse novo momento para nossa Instituição. Sobe a orientação de meu Si Fu de Miami, vamos passo a passo preparando esse novo espaço para todo Clã e futuros praticantes do Sistema Ving Tsun. Sem deixar de ressaltar a emoção de ter ao meu lado nesse dia, minha filha mais velha, Alice. 

Maria Alice Teixeira Abertura SAM TOI
Sede Clã Moy Jo Lei Ou Barra da Tijuca

        Como diz meu Si Fu, temos que ter sempre muito cuidado ao pisar em um Mogum, pois estamos pisando sobre sonhos, sonhos esses capazes de ser realizado através da força dessa Família Kung Fu focada em seu processo de aprimoramento constante, não só do espaço físico, mas de cada de nós como indivíduos. No caso especial dessa Sede, não posso deixar de ressaltar que o momento é impar em nossa história, porque pela primeira vez, temos a oportunidade de manifestarmos o Zelo por nossa Casa Kung Fu com nosso Si Fu morando em outro país. Por tanto, cuidar desse local para recebê-lo em sua vinda ao Brasil no fim do ano, e preparar sua inauguração oficial, e eventos que se darão em função dessa vinda, será um especial exercício de Vida Kung Fu com grandes desafios, e enormes desenvolvimentos.

Sigamos Juntos!


Por Claudio Teixeira, Discípulo do Mestre Sênior Julio Camacho








sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O Tao das facas.

             Ser um praticante do Nível Superior Final do Sistema Ving Tsun de Inteligência Marcial requer sempre algo além do prática e dedicação. Transformar as letais Ving Tsun Do em parte do seu corpo não é um tarefa treinável, mas um processo de sintonia de mim com o todo. Existem certos aspectos que consigo narrar, outros acontecem num nível mais profundo que apenas se manifestam e eu percebo. Quanto mais eu forço para dominar tais armas, menos eficácia sinto em minhas ações. Quanto mais respeito a natureza delas, mais o fluxo letal do traçado proposto na Sequência de Movimentos do Domínio se manifesta. 

Mestre Sênior Julio Camacho
exibindo o Baat Jaam Do

            Nesse aspecto, somente o olhar treinado de um Si Fu (Líder de Família Kung Fu) proporciona ao praticante a liberdade de ação necessária para cada movimento. A  longeva  relação discipular me permite me desnudar das várias camadas de artificialidade geradas pelos meus mecanismos de proteção acumulados em crenças. Ontem, durante minha prática semanal do Nível, algumas colocações profundas nesse sentido de meu Si Fu, me ajudaram em muito destravar algumas amarras que ainda impedem a fluência do meu Kung Fu. 

Mestre Sênior Julio Camacho acompanhando
 Claudio Teixeira iniciando sua carreira como tutor

            Ao mesmo tempo em que meu Si Fu apontava que cada movimento meu deveria ter mais efetividade, dizendo que a listagem não era uma dança, pois cada ação deveria conter uma intenção clara, ele salientava que essas mesmas ações deveria ter uma conexão entre si, me incentivando colocar mais arte no movimento. Para um leitor, parecem colocações paradoxais, mas ser conduzido pelo meu Si Fu à extrair o melhor de mim, através do zelo e do relaxamento, em movimentos de explícita e notória  letalidade, é uma tarefa de conexão indescritível da minha parte como Discípulo, e tenho certeza que da parte dele como Mestre. A busca do desenvolvimento humano que me permite ser uma pessoa melhor a cada dia, através de dispositivos cujos signo de morte é fundamental, apenas traduz um pouco do que significa a Listagem de Movimentos do Nível Superior Final para mim , e tal como Tao, o o Baat Jaam Do não se define, porque se definissem não seriam nem o Tao, nem o o Baat Jaam Do.


terça-feira, 27 de outubro de 2020

O papel de um Discípulo.

        Uma pergunta que não me dei conta de fazer antes da minha Cerimônia de Discipulado em 2013, foi questionar qual seria o papel de ser Discípulo. Porém o Mestre Sênior Julio Camacho, ao qual passarei me referir por Si Fu nessas linhas, sempre disse que a entrega de um nome Kung Fu sempre carregava uma característica que percebia na pessoa, uma missão, e uma advertência. Meu nome carrega em seus ideogramas a palavra honra no sentido de nobreza, e antepassados. E durante muitos anos eu nunca compreendi a escolha de meu Si Fu em me dar esse nome, ao qual pouco me identificava. Nunca me senti nobre, honrado e conectado com ancestralidade `altura de levar um nome de tamanho peso.  Com o tempo, fui percebendo naturalmente, tal  como a máxima que meu Si Fu disse algumas vezes,que o tempo se encarrega de fazer o Discípulo assumir seu nome a medida que passei me colocar mais como um liderança do Clã Moy Jo Lei Ou, minha missão de proteger e perpetuar o Legado do Sistema Ving Tsun.

           
Primeira prática na Sala da Sede do Clã Moy Jo Lei Ou

Um dos primeiros mergulhos mais profundos no meu nome foi justamente me colocar a frente do processo de dirigir um Núcleo do Clã em Ipanema, onde as advertências ocultas em meu nome Kung Fu foram ficando cada vez mais óbvias em muitas situações que não agia de maneira tão condizente com a responsabilidade óbvia que esse nome me trazia, e quanto mais encarava tais preceitos como desafios, mais era advertido pelas consequências dos meus atos. Toda essa situação começou se reverter quando comecei me dar conta que as circunstâncias do cotidiano eram meras batalhas diante da grande guerra que corria dentro de mim mesmo. 

            Com a ida do Si Fu para Miami, sua repetida fala a cerca que ancestralidade diz respeito também as gerações vindouras, começou ecoar dentro de mim, e passei por um processo de profunda reformulação da minha maneira de me colocar à serviço desse processo cada vez mais rico de me tornar um elo em essa corrente.  

            
Entrega da chave do Núcleo Barra

Ontem, eu pude ter a honra de dar um grande passo de maneira muito nobre nesse processo ancestral que tanto traduz meu nome, ao ser o integrante mais velho da Família Moy Jo Lei Ou presente na primeira atividade na recém adquirida Sede do Clã. Numa manhã de céu límpido, estive presente junto meus irmãos Kung Fu Guilherme de Farias e Carmem Maris dando o ponta pé inicial em todo processo do ponto vista gerencial desse grande desafio que é estruturar a ambiência objetiva de um Sala de Guerra que levará o Jiu Paai do meu Si Fu, na primeira ocasião em que ele não participará presencialmente desse processo por estar morando em Miami. E finalmente, após sete anos que carrego o nome Moy Kat Jo, que compreendi num nível mais profundo que minha missão nesse instante está contido no lema mais repetido de Si Fu, pois esse Sede será o local para possamos seguirmos juntos.




domingo, 25 de outubro de 2020

Reencontrando o rumo.

Da incontáveis palavras dirigidas à mim pelo Mestre Sênior Julio Camacho, ao qual passarei me referir por meu Si Fu nessas linhas, as que mais ecoam na minha cabeça, inclusive já escrevi e até gravei um vídeo sobre elas. Foi quando numa ocasião ele me disse: Claudio, você é uma pessoa tão habilidosa, que se houver uma enchente aqui neste local agora, você é capaz de transformar uma porta num barco, e salvar a todos aqui. Entretanto, se torna vítima dessa própria habilidade por abrir mão da preparação por achar que pode se garantir sempre, que jamais seria capaz de construir esse prédio. 

De fato, até aquele momento em minha vida, eu sempre fui muito mais voltado para "apagar incêndios que para projetar sistemas anti-chama". De maneira superficial, até me orgulhava de ter uma natureza com aquilo que eu entendia por Biu Ji (Nível Avançado do Fase Estruturada do Sistema Ving Tsun que fecha a primeira trilogia de duas do Sistema Ving Tsun). Porém confesso hoje, que nesse nível, ao qual estudamos dentro da emergência a capacidade de retornar ao estrategicamente ideal, eu sentia um desconforto que sempre me intrigou durante minha Jornada Marcial no Sistema. Era como se me faltasse algo, que não entendia bem, mas ficava como um ruído de fundo falando baixinho em meu intimo que eu estava fazendo aquilo errado. 

As  maiores vantagens  numa relação Si Fu Todai (Mestre Discípulo) é primeiro que, ao assumirmos o compromisso do Discipulado, assumimos mutuamente e vitaliciamente. Meu Si Fu estará sempre para me conduzir no desenvolvimento do meu Kung Fu, e cabe à mim procurá-lo da maneira adequada. E o melhor disso, temos uma vida toda para tal. Dessa maneira, mesmo por inúmeras vezes tendo eu me desanimado dessa jornada, e até me afastado por inúmeras razões, toda vez que retornava, meu Si Fu estava lá para me receber novamente. E assim, aos poucos, fui me sintonizando com uma frequência cada vez maior nessa relação muito especial que vem me trazendo incalculáveis benefícios, muitas vezes bem acima daquilo que posso até oferecer ao meu Si Fu como seu Discípulo. 

Hoje foi um desses dias onde me beneficiei muito acima do esperado, durante uma de nossas práticas on-line no Projeto Desvendando a Fase Estruturada, conduzida direto de Miami pelo Si Fu. Dentre atividades práticas sempre com um mergulho mais profundo no Sistema, estávamos estudando justamente o Biu Ji, quando na proposta de tirar minhas vendas, dentro da proposta que dá nome à série de práticas, fechei algumas lacunas em aberto sobre meu entendimento sobre o Sistema. 


Curiosamente, tenho tentado mudar minha maneira de ser já tem algum tempo, me voltando muito mais para a preparação, do que para a emergência. Para a prática de hoje, eu comecei me preparar ontem, tanto a ambiência, quanto corporalmente, tentando antecipar quais desafios poderiam surgir, e mesmo assim me decepcionei demais com minha atuação durante a execução de parte da listagem do Nível. Mas no Kung Fu, como me disse o Si Fu durante a aula, o resultado nunca é o mais importante, e sim o que extraímos da experiência. E dentro dessa máxima, após o término continuei praticando um pouco mais, buscando levar o aprendizado de hoje para a natureza do Domínio do Nível Superior final. E como num passe de mágica, consegui produzir alguns movimentos com as Facas VIng Tsun Do, com uma precisão e energia, que jamais havia conseguindo antes. Como se tivesse descoberto novas conexões energéticas entre o quadril, cotovelos e os punhos, as facas passaram deslizar com mais firmeza e suavidade em minhas mãos.

Mas na Guerra não há tempo para o luto nem para a celebração durante  pequenas batalhas. Logo que percebi essas diferenças, notei também que veio um novo conjunto de questões a serem resolvidas, nesse quebra cabeça sem fim de se usar o corpo marcialmente como uma ferramenta de aprendizado constante. Para minha sorte, ainda tenho muito dessa vida toda para novas descobertas nesse grande desafio do Kung Fu.


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A Guerra e o Zelo.

 De acordo com Patriarca Moy Yat, Discípulo do Famoso Mestre do Bruce Lee, Patriarca Ip Man,  se mede o nível de Kung Fu de um Artista Marcial pela sua capacidade de relaxar e ser gentil, algo que parece contraditório ao que hoje pode ser considerado uma atividade física, ou esporte, mas que durante grande parte da existência da humanidade foi constituído em função da guerra. 

O Mestre Sênior do Sistema Ving Tsun de Inteligência Marcial, ao qual me refiro como Si Fu nessas linhas, afirma que a agressividade é matéria prima das artes marciais. Dessa maneira, parece cada vez mais contraditório falar sobre relaxamento e gentileza, quando falamos de Kung Fu.

Foto Tradicional Si Fu Todai

Primeiramente faz-se necessário compreender que o processo de desenvolvimento daquilo que nos compreendido como Kung Fu através do Sistema Ving Tsun, demanda uma ressignificação do senso comum sobre Arte Marcial. Entendendo o processo marcial como algo advindo da cultura da guerra, compreender que a grande guerra da humanidade é de fato aquela que ocorre dentro de nós mesmos, colocando o relaxamento sempre a melhor maneira de silenciar os anseios de maneira não se agir de forma precipitada, imprudente, contaminada por emoções exacerbadas, ou afetadas por uma leitura imprecisa dos cenários. Quanto mais nos colocamos sob tensão, menos temos a capacidade de sustentar um alto nível  de atenção por longos períodos. Para a luta do dia a dia, o relaxamento nos permite sustentar um estado mental de guarda e prontidão muito mais eficaz. Por isso a orientação de um Si Fu ultrapassa em muito o mero aspecto técnico marcial, e nos permite o desenvolvimento de uma condição mental alinhada e afiada. 

Quando meu Si Fu me diz por exemplo, durante uma Sessão do Nível Superior Final, onde para nossa segurança usamos réplicas de facas ao qual devemos tratar com o mesmo cuidado e atenção que os afiados e letais Ving Tsun Do, é justamente para me proporcionar uma ambiência subjetiva que permite o desenvolvimento de uma atitude mental marcial constante. E aí começa inclusive ficar mais claro o papel da gentileza. A gentileza manifestada pelo processo de atenção cuidadosa ao qual nos referimos por zelo, permite ao praticante de Ving Tsun, voltado para o desenvolvimento de seu Kung Fu, acessar uma camada além do conceito marcial do estilo, mas aquele que hoje seja o que mais me encanta, a parte artística. Também é muito comum ouvirmos do meu Si Fu que arte é a capacidade de colocar a expressão pessoal  transformando algo não definido em estado bruto, numa obra refinada que representa seu autor. 

O processo de uso do Sistema Ving Tsun como ferramenta de Desenvolvimento Humano, passa pela necessidade de um mergulho profundo nas nuances do conceito de humanidade. O relação discipular permite ao praticante fazer de nosso Si Fu como um referência do processo do Zelo, e nessa linguagem que quanto mais alto nível, mais silenciosa e discreta se torna, aprendemos que cuidado sem atenção e vice versa, desperdiçam o potencial de explorar da gentileza como um poderoso dispositivo desenvolver-se como artista marcial.